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A transformação é audível antes mesmo de ser explicada. “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)” abre o disco com guitarra, baixo e percussão encaixados como partes de uma mesma engrenagem. Não há uma longa apresentação: o movimento já começou. Para quem acompanha os álbuns anteriores de Jorge Ben, tudo parece familiar e, ao mesmo tempo, deslocado para outro lugar.

Em 1976, o nome impresso na capa ainda era Jorge Ben. A mudança para Jorge Ben Jor viria em 1989. Ele já tinha atravessado a bossa nova, a Jovem Guarda e o diálogo com os tropicalistas sem se acomodar inteiramente em nenhum desses espaços. Também havia desenvolvido uma maneira própria de aproximar samba, soul, rock, ritmos afro-brasileiros e narrativa popular. África Brasil não inventou essa combinação. O que fez foi alterar seu peso e sua textura.

Lançamento1976
GravadoraPhilips
ProduçãoMazzola
Repertório11 composições de Jorge Ben

O que realmente mudou no som de Jorge Ben?

A guitarra elétrica já aparecia no trabalho de Jorge Ben e estava presente em Solta o Pavão. Dadi Carvalho, baixista da Admiral Jorge V, recorda ainda que havia violão nas sessões de 1976. A virada de África Brasil não depende, portanto, de uma estreia absoluta do instrumento, mas do espaço que ele passou a ocupar.

A diferença é de centralidade. Em África Brasil, a guitarra se torna uma voz rítmica dominante. As frases curtas, repetidas e percussivas se unem ao baixo e à bateria, enquanto congas, atabaques, tumbas, cuíca, surdo e outros instrumentos multiplicam os ataques e as respostas. A eletrificação não retira a percussão do caminho; depende dela.

Dadi descreve Jorge como o “maestro” do álbum: era ele quem trazia as ideias, indicava a entrada dos músicos e imaginava a disposição das percussões. O processo admitia acontecimentos espontâneos, mas seguia uma direção definida pelo compositor.

A novidade não estava em um instrumento isolado. Estava no modo como guitarra, baixo e percussão passaram a respirar juntos.

Uma banda de palco dentro de um disco maior

O núcleo das gravações vinha da Admiral Jorge V, grupo que acompanhava Jorge Ben nos palcos. Dadi Carvalho tocou baixo; Joãozinho participou da percussão; João Roberto Vandaluz, ligado à formação da banda, aparece nas lembranças daquele período. A ficha reconstruída pela pesquisadora Maria Luiza Kfouri indica ainda Pedrinho na bateria e Gustavo Schroeter na percussão, além de uma formação de estúdio muito mais ampla.

Entre os participantes identificados estão José Roberto Bertrami nos teclados, João “Bum” ao piano, Wilson das Neves, Wilson Canegal, Djalma Corrêa, Ariovaldo e Hermes Contesini e Esdra “Neném” Ferreira nas percussões. Oberdan Magalhães, Zé Carlos Bigorna, Márcio Montarroyos e Darcy Cruz aparecem nos sopros. Evinha, Cláudia, Regina Corrêa, Marizinha e Waldyr integram os coros.

Os créditos de arranjo variam de faixa para faixa entre Jorge Ben, Mazzola e Bertrami. A ficha original não distribuiu todos os músicos por canção. A identificação detalhada apresentada pela Discografia Brasileira foi reconstituída por sua autora, Maria Luiza Kfouri. Na gravação, a firmeza do núcleo elétrico contrasta com a quantidade de cores ao redor dele.

Umbabarauma e a camisa 10 da Gávea

O futebol aparece duas vezes no álbum. Em “Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)”, Jorge Ben cria um atacante africano cuja força se espalha pela narração como se o jogo estivesse acontecendo diante do ouvinte. Dadi Carvalho identificou o personagem como uma invenção de Jorge. Zico ocupa a outra faixa futebolística do disco, “Camisa 10 da Gávea”.

A homenagem ao jogador do Flamengo está em “Camisa 10 da Gávea”. Quando o disco chegou às lojas, Zico já era o grande nome do clube e havia usado a camisa 10 da Seleção Brasileira. Misturar as duas canções apaga uma qualidade importante do repertório: Jorge podia transformar tanto um personagem imaginado quanto um ídolo reconhecível em figura de epopeia.

O próprio vocabulário de “Ponta de Lança” preserva uma posição do futebol de outra época. O atacante se torna maior que a partida, mas a canção mantém a observação concreta do jogo: avanço, drible, velocidade e celebração coletiva. É uma narrativa esportiva conduzida pelo ritmo.

África e Brasil: história negra no primeiro plano

O título do álbum não serve apenas como moldura. “Xica da Silva”, “Cavaleiro do Cavalo Imaculado” e a nova gravação de “Zumbi” colocam personagens negros e referências africanas no centro do repertório. O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar e sob o discurso da democracia racial, apresentado como convivência harmoniosa apesar das desigualdades e do racismo existentes.

Estudos acadêmicos recentes examinam no álbum as relações entre memória da escravidão, afirmação negra e continuidade cultural entre África e Brasil. Essa dimensão aparece na escolha dos personagens, nas referências históricas e na posição central que recebem nas canções, sem que o disco adote a linguagem direta de um manifesto partidário.

Duas gravações de “Zumbi”

Jorge Ben já havia lançado “Zumbi” em A Tábua de Esmeralda, de 1974. A versão começa de forma mais despojada, apoiada no violão. Em 1976, a composição reaparece como “África Brasil (Zumbi)” e ganha outra arquitetura: introdução de piano e agogô, guitarra, metais e uma massa percussiva que aumenta a tensão da narrativa.

A comparação é uma das maneiras mais claras de perceber a mudança. A letra continua voltada à violência da escravização e à expectativa da chegada de Zumbi; a gravação, porém, transfere a história para um ambiente mais denso e afirmativo. O pesquisador não precisa decidir qual versão é “melhor”. Elas registram duas soluções musicais para a mesma composição, separadas por dois anos decisivos.

“Xica da Silva” e a mulher transformada em personagem histórico

“Xica da Silva” foi feita no contexto do filme homônimo dirigido por Cacá Diegues, lançado em 1976, com Zezé Motta no papel principal. Dadi recorda que Jorge recebeu a sinopse durante uma viagem e criou rapidamente a canção-tema. A faixa entrou em África Brasil e mais tarde ganhou uma gravação de Miriam Makeba.

A personagem cantada é uma elaboração artística ligada ao cinema e ao modo como os anos 1970 voltaram a narrar a história de Chica da Silva, figura do século XVIII. A canção não funciona como biografia documental. Seu alcance está em fazer circular a imagem de uma mulher negra no centro de um filme, de um refrão e da memória popular.

Futebol, alquimia, família e amor impossível

Apesar do título, o álbum não se limita a um único tema. “Hermes Trismegisto Escreveu” e “O Filósofo” continuam a atração de Jorge Ben pela alquimia e pelo conhecimento esotérico, muito presente em A Tábua de Esmeralda. “Cavaleiro do Cavalo Imaculado” e “O Plebeu” retomam seu imaginário medieval, povoado por nobres, cavaleiros e amores separados pela posição social.

“Meus Filhos, Meu Tesouro” desloca o olhar para a família. “A História de Jorge” apresenta um personagem capaz de voar e deixa aberta a fronteira entre fábula e autorretrato. “Taj Mahal”, já conhecida em gravações anteriores, reaparece condensada pelo novo conjunto elétrico.

Kamille Viola reúne A Tábua de Esmeralda, Solta o Pavão e África Brasil sob a ideia de uma “trilogia mística”. Nessa leitura da jornalista, o álbum de 1976 encerra o percurso sem abandonar a alquimia, colocando-a ao lado de uma sonoridade que passaria a orientar a etapa seguinte da carreira.

O que permaneceu depois da mudança

Cinquenta anos depois do lançamento, África Brasil continua sendo ouvido por artistas de linguagens diferentes. Para o livro dedicado ao disco, Kamille Viola entrevistou BNegão, Mano Brown, Marcelo D2, Jorge du Peixe e Lúcio Maia. São músicos ligados ao rap, ao rock e ao manguebeat que reconheceram a influência de Jorge Ben sobre sua formação.

Esses depoimentos ajudam a medir o alcance do álbum. Mano Brown relaciona a existência dos Racionais MC’s ao caminho aberto por Jorge; BNegão lembra “Xica da Silva” como a primeira canção ouvida por ele no rádio que falava de uma pessoa negra. São memórias individuais que revelam como uma obra entrou na vida de quem depois produziria outra música.

O disco também oferece uma resposta para a velha oposição entre mudança e fidelidade. Jorge Ben mudou de som sem abandonar seus assuntos, seu balanço nem a maneira de contar histórias. A guitarra avançou, mas não chegou sozinha. Trouxe consigo uma banda, uma floresta de percussões e personagens que já habitavam o compositor, agora vistos sob outra luz.

As onze faixas

  1. Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)
  2. Hermes Trismegisto Escreveu
  3. O Filósofo
  4. Meus Filhos, Meu Tesouro
  5. O Plebeu
  6. Taj Mahal
  7. Xica da Silva
  8. A História de Jorge
  9. Camisa 10 da Gávea
  10. Cavaleiro do Cavalo Imaculado
  11. África Brasil (Zumbi)

Perguntas frequentes

África Brasil foi o primeiro disco em que Jorge Ben tocou guitarra elétrica?

Não. A guitarra já aparecia antes, inclusive em Solta o Pavão. Em 1976, ela passou a ocupar o centro dos arranjos de maneira mais sistemática e audível.

Quem é Umbabarauma?

É o ponta de lança africano imaginado por Jorge Ben. A canção dedicada diretamente a Zico é “Camisa 10 da Gávea”.

Quem produziu o álbum?

Mazzola produziu o disco para a Philips. Os arranjos são atribuídos, conforme cada faixa, a Jorge Ben, Mazzola e José Roberto Bertrami.

Quantas músicas há no disco?

São onze faixas, todas compostas por Jorge Ben.

Por que aparece “Jorge Ben” e não “Jorge Ben Jor”?

Porque esse era o nome artístico usado em 1976. A forma Jorge Ben Jor foi adotada em 1989.

Fontes consultadas

Critério editorial: datas, repertório e créditos foram conferidos em fontes especializadas e institucionais. Memórias sobre as sessões são atribuídas aos entrevistados. Leituras sobre identidade negra e o contexto político são identificadas como interpretações de estudos acadêmicos.

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