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Em 1975, uma doença mudou o rumo de duas cantoras. Maria Creuza havia sido escolhida para gravar “Filho da Bahia”, de Walter Queiroz, para a trilha da novela Gabriela. Como ela adoeceu, o produtor Roberto Sant’Ana sugeriu uma jovem paraense que ainda começava a construir sua carreira.
Uma estreia que não estava prevista
Fafá tinha 18 anos quando assumiu a gravação. A música começou a tocar em abril de 1975 e apresentou sua voz ao país. O convite que surgira de última hora tornou-se o marco inicial de uma trajetória nacional que agora chega a cinco décadas.
Maria de Fátima Palha de Figueiredo nasceu em Belém, em 9 de agosto de 1956. Ainda adolescente, aproximou-se dos palcos e conheceu Roberto Sant’Ana, produtor ligado à indústria fonográfica. Foi ele quem a incentivou a seguir profissionalmente e, mais tarde, abriu a porta pela qual “Filho da Bahia” chegaria até ela.
No mesmo período, Fafá gravou um compacto com “Naturalmente”, de Caetano Veloso e João Donato, e “Emoriô”, de Gilberto Gil e João Donato. O primeiro álbum viria no ano seguinte.
O Pará no centro de Tamba-Tajá
Lançado em 1976 pela Polydor, Tamba-Tajá já anunciava a amplitude que acompanharia Fafá. Luiz Gonzaga e Miguel Lima apareciam em “Xamego”; Antônio Maria e Ismael Netto, em “Canção da Volta”; Caetano Veloso, em “Cá-Já”; Nelson Angelo, em “Fazenda”; Mário Lago, em “Fracasso”.
A abertura, contudo, estabelecia claramente o ponto de partida. “Indauê-Tupã”, de Paulo André e Ruy Barata, era seguida por “Tamba-Tajá”, de Waldemar Henrique. Mais adiante vinha “Este Rio É Minha Rua”, novamente de Paulo André e Ruy Barata.
A Amazônia que chegava ao disco não servia apenas como paisagem. O rio, a canoa, as lendas e a vida ribeirinha pertenciam a uma experiência cultural desenvolvida por compositores da região e interpretada por uma cantora formada naquele ambiente. Pesquisa da Universidade Federal do Pará situa o álbum entre os trabalhos importantes para a presença regional na canção popular urbana paraense.
Uma intérprete sem território fixo
Nos discos seguintes, Fafá ampliou rapidamente o repertório. Gravou autores do Pará, do Nordeste, do Sul e do eixo Rio-São Paulo. Passou por Waldemar Henrique, Paulo André e Ruy Barata, Milton Nascimento, Fernando Brant, Chico Buarque, Joyce, Paulinho da Viola, Guilherme Arantes, Djavan e muitos outros.
“Foi Assim”, “Sob Medida”, “Bilhete”, “Memórias”, “Meu Dilema” e “Nuvem de Lágrimas” alcançaram públicos diferentes. Essas escolhas também expuseram Fafá às divisões que a crítica musical costumava estabelecer entre a MPB e repertórios classificados como românticos, sertanejos ou bregas.
Sua discografia reuniu compositores consagrados pela crítica e autores de grande circulação popular. A unidade estava menos no gênero do que na interpretação. Seu canto podia ser expansivo e festivo, mas também encontrava espaço para contenção, melancolia e delicadeza.
“Filho da Bahia” entra na trilha de Gabriela e projeta sua voz nacionalmente.
Tamba-Tajá inaugura sua discografia com forte presença da música amazônica.
“Menestrel das Alagoas” e os comícios das Diretas Já aproximam música e participação pública.
Meu Fado aprofunda a relação com Portugal.
Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso coloca o brega paraense no centro do repertório.
A voz que foi para as ruas
A participação nas Diretas Já acrescentou à carreira uma dimensão que ultrapassava o palco musical. Fafá esteve ativamente envolvida nos comícios e apresentou-se sem cobrar cachê, como recordaria mais tarde em homenagem realizada no Senado Federal.
Em 10 de abril de 1984, ela chegou de táxi ao comício da Candelária, no Rio de Janeiro, levando uma pomba branca. Não estava na lista oficial de oradores. Depois de conseguir subir ao palanque, cantou “Menestrel das Alagoas” e se juntou à multidão no Hino Nacional. Cerca de um milhão de pessoas ocuparam a região central da cidade naquela noite.
“Menestrel das Alagoas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, homenageava o senador Teotônio Vilela e havia sido gravada por Fafá em seu álbum de 1983. O Hino Nacional, associado às apresentações nas Diretas, seria registrado no disco Aprendizes da Esperança, de 1985.
Ao final dos comícios, Fafá soltava uma pomba branca. O gesto repetido em diferentes cidades tornou-se uma das imagens daquele movimento pela retomada das eleições diretas para presidente.
Um caminho pelo Atlântico
A relação de Fafá com Portugal vinha de sua história familiar e adquiriu uma dimensão artística cada vez maior. Em 1992, ela lançou Meu Fado, gravado naquele país. Segundo a cantora, o projeto nasceu de um convite do mercado português e foi precedido por aproximadamente um ano de pesquisa.
O disco teve produção de Mário Martins e arranjos de António Chainho (1938–2026), um dos grandes mestres da guitarra portuguesa. O repertório reuniu obras como “Foi Deus”, “Nem às Paredes Confesso”, “Estranha Forma de Vida” e “Tudo Isto É Fado”.
Meu Fado recebeu disco de platina em Portugal. O resultado confirmou que aquela aproximação com a música portuguesa havia encontrado também uma ampla resposta do público.
Em Tanto Mar, de 2005, Fafá dedicou um álbum inteiro a Chico Buarque. O repertório incluiu “Fado Tropical” e as duas versões de “Tanto Mar”, composição ligada à Revolução dos Cravos de 1974. Brasil e Portugal voltavam a se encontrar dentro de sua discografia.
O reencontro com o brega paraense
Em 2015, depois de uma década sem lançar um álbum de estúdio, Fafá apresentou Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso. Produzido por Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro, o projeto voltou-se para repertórios populares ligados ao Pará.
O brega ocupava o centro da proposta. Havia canções conhecidas, como “Ao Pôr do Sol”, de Teddy Max, e obras recentes, como “Asfalto Amarelo”, de Felipe Cordeiro, Manoel Cordeiro e Zeca Baleiro. Entraram também “Volta”, de Johnny Hooker, e “Meu Coração é Brega”, de Alípio Martins.
O álbum recuperou uma música presente havia décadas nas festas, nas rádios e na memória afetiva paraense. Em 2016, venceu o Prêmio da Música Brasileira nas categorias de melhor álbum e melhor cantora de canção popular.
Quatro anos depois, Humana apresentou outra atmosfera. O disco de 2019 privilegiava uma interpretação mais íntima e repertório de diferentes gerações. A Associação Paulista de Críticos de Arte o incluiu entre os trabalhos brasileiros destacados daquele ano.
Setenta anos, cinquenta deles em público
Ao completar 70 anos, Fafá de Belém chega a uma data que permite observar sua carreira para além de uma coleção de sucessos. A trajetória registra transformações da própria música brasileira: a entrada de repertórios regionais no mercado nacional, as disputas sobre o que poderia ser considerado MPB, a força da canção romântica e a revalorização de gêneros populares antes tratados com preconceito.
Registra também um momento decisivo da história política do país. Poucos artistas ficaram tão diretamente associados às imagens das Diretas Já quanto a cantora paraense com o Hino Nacional e uma pomba branca nas mãos.
Em entrevista ao Itaú Cultural, Fafá definiu-se como uma mulher curiosa, que nunca respeitou as convenções impostas por sua idade ou pela sociedade. A frase combina com uma discografia que passou pela canção amazônica, pela música romântica, pelo sertanejo, pelo fado e pelo brega paraense sem aceitar uma única classificação.
Fafá atravessou estilos, públicos, países e diferentes momentos da indústria musical. A cada passagem, levou consigo o nome da cidade onde nasceu. Cinco décadas depois, Belém continua presente antes mesmo de a primeira nota ser cantada.
Perguntas frequentes
Qual é a idade de Fafá de Belém?
Fafá completou 70 anos em 9 de agosto de 2026. Ela nasceu em Belém do Pará, em 9 de agosto de 1956.
Como Fafá de Belém começou a carreira nacional?
Ela ganhou projeção em 1975 ao gravar “Filho da Bahia” para a trilha da novela Gabriela. Fafá assumiu a música depois que Maria Creuza, inicialmente escolhida, adoeceu.
Qual foi o primeiro álbum de Fafá de Belém?
Tamba-Tajá, lançado em 1976 pela Polydor. O repertório reuniu compositores de diferentes regiões e destacou referências culturais da Amazônia.
Qual foi a participação de Fafá nas Diretas Já?
Fafá participou gratuitamente dos comícios, cantou “Menestrel das Alagoas” e o Hino Nacional e soltava uma pomba branca ao final das apresentações.
Fafá de Belém gravou fado?
Sim. Em 1992, ela gravou em Portugal o álbum Meu Fado, que recebeu disco de platina no país.
Fontes consultadas
- Enciclopédia Itaú Cultural — Fafá de Belém.
- Itaú Cultural — “Fafá de Belém, um certo alguém”, entrevista publicada em 2020.
- Câmara dos Deputados — Fafá de Belém nas Diretas Já.
- Rádio Câmara — multidões lotavam praças pelas eleições diretas.
- Senado Federal — Fafá recorda a luta de Teotônio Vilela pelas Diretas Já.
- Terra — relato de Fafá sobre o comício da Candelária, 10 de abril de 2014.
- Universidade Federal do Pará — pesquisa sobre música e identidade regional paraense.
- Discogs — ficha e edições de Tamba-Tajá.
- Discogs — álbum Fafá de Belém, de 1983.
- Discogs — Aprendizes da Esperança, de 1985.
- Canal Brasil / Globoplay — O Som do Vinil: Meu Fado.
- Museu do Fado — António Chainho (1938–2026).
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — Fafá de Belém, consultado criticamente em razão da divergência sobre o dia de nascimento.
- Mauro Ferreira — 50 anos de carreira de Fafá de Belém. Fonte do relato sobre a substituição de Maria Creuza em “Filho da Bahia”.
Critério editorial: informações sobre vendas foram incluídas somente quando sustentadas por fontes identificadas. Não foram utilizados totais gerais de discos vendidos ou números de álbuns cuja documentação varia entre as biografias consultadas.
